Viajei de Amsterdam para Tel Aviv via Bucareste com a infame TAROM. Estive na Romênia há uns 10 anos atrás e a atmosfera opressiva comunista se mantinha embora a transformação em algo capitalista estivesse em curso. É notório que os anos por trás da cortina de ferro deixou marcas indeléveis: pessoas ríspidas, duras desde o tom de voz. Tendo o embarque em Amsterdam terminado, uma atarracada comissária contava aqueles à bordo. Um desavisado. coitado, levantou-se talvez para se esticar, talvez para pegar algo no compartimento superior. Ela para sua contagem e berra em inglês, Sente-se. Já. Não há nada para fazer de pé. Sente-se. Não haviam interjeições, por favores ou obrigados. E eu enfiei minha cara na revista de bordo.
À espera do embarque no portão do Aeroporto Otopeni, eu observava o povo na fila. De repente, vi uma velhinha e imediatamente me veio à cabeça: é a mãe do Borat. Inventei para mim mesmo uma história: era a primeira vez que ela viajava de avião, a primeira vez que havia saído de seu vilarejo perdido nos Balcãs para ver in loco o que o seu padre cristão ortodoxo contava nas missas. Usava um lenço florido na cabeça com um nó sob o queixo do rosto enrugado. Corpo empertigado. Sem sorrisos. Seu casaco era pesado e tinha uma espécie de pele animal na gola, punhos e nas beiradas. O animal abatido devia ter sido um camelo, possivelmente sujo. E eu pensei, sou um cara de sorte - ela vai se sentar ao meu lado.
Embarquei para o trecho final da minha primeira viagem para o Oriente Médio e fiquei procurando o meu assento - corredor, comme d'habitude - e a mãe do Borat. Quando o localizei, a mãe do Borat não estava ao lado. Ops! Mas havia alguém sentado no meu assento. Ops, ops! A mãe do Borat estava ao meu lado; só que do outro lado do corredor. Cara de sorte... Quando provei que o assento do corredor era o meu, a dama que havia incorretamente o tomado teve um acesso de claustrofobia. Eu, compreensivo e tranquilizador, disse-lhe que daria o assento do corredor desde que ninguém se sentasse na janela - sim, porque também sou claustrofóbico. Mas o vôo estava lotado e o dono do assento da janela - que depois comprovou ser um elemento roncador - chegou. Portanto, sorry mas eu ficarei aqui mesmo, e apesar da mãe do Borat. A propósito, foi só o avião levantar vôo e o acesso de claustrofobia dela desapareceu como por encanto. Engraçadinha.
Enfiei minha cara na revista de bordo novamente. Já havia quase decorado os artigos desinteressantes escritos com inglês duvidoso. De repente, a manga da minha camisa é puxada. Pensei, What kind of fuckery is this? Era a mãe do Borat. Cara de sorte. Ela falava comigo possivelmente em romeno e eu fiz minha cara de pontodeinterrogação. Ela continuou até que me mostrou o cinto de segurança que não conseguia atarrachar. E lá fui eu explicar via sinais até que desisti e fechei-o eu mesmo para ela. E ela ficou quietinha até que chegaram os passageiros que sentariam ao lado dela. E ela não sabia mais como abrir a fivela do cinto de segurança e a confusão formou-se. Até que uma comissária, grosseira, chegou, possivelmente a xingou e a livrou do seu cinto. Enfiei minha cara na revista de bordo novamente.
O avião estava taxiando. E eu ouvia um cochicho, um sussurro, um shshsh incessante. Levantei a cara da revista de bordo e me aventurei a olhar para o lado. Mamãe de Borat tinha sua mão direita sobre o assento da frente. Sua mão esquerda estava sobre o pulso e ela estava inclinada com os olhos fechados. Assumi que estava orando. Confirmei só numa segunda olhada de soslaio - ela usava uma pulseira com ícones diversos que ela dedilhava mas, quando chegava a um crucifixo, ela parava e dava três beijinhos devotos na cruz. E lá foi ela shshsh-ando até que atingimos a altitude de cruzeiro. OK, reza de mãe de Borat tem poder.
Depois do jantar servido e os restos, recolhidos, a comissária passou por mim com alguns cobertores. Em seguida, minha manga foi puxada. E novamente, a conversa ininteligível recomeçou. Chamei a comissária e, mal abri a boca e ouvi um aqueleseramosúltimoscobertoresquesobraramdaclasseexecutivaenãotenhomaisnenhum sem pausa para respiração. E eu, com o meu melhor e mais polido inglês, sorry for the misunderstanding, it seems that this lady by my side needs some help but I regret not to speak her language. Momento saia justa, como eu quis. Elas se conversaram secamente e a comissária se foi - nunca soube do que se tratou e tenho até medo de saber.
O avião manteve-se no alto até que o comandante avisou que estávamos nos aproximando de Tel Aviv. E a mãe de Borat recomeçou suas preces. Exatamente como quando levantamos vôo. E aterrisamos suavemente no Ben Gurion. Novamente pensei, reza de mãe de Borat tem poder.
Uma semana depois, eu, cansado depois de ficar quase 2 horas numa fila zoneada para entrar onde Jesus foi sepultado e só poder ficar lá por menos de 1 minuto, sentei-me nas escadas em frente à Igreja do Santo Sepulcro. Minha lombar doía e aquela escada era uma benção. Juntei-me às outras pessoas que faziam o mesmo e observávamos o enorme fluxo de turistas alheios ao conflito judeusversusmuçulmanos. Abri o meu livro guia e o folheei para passar o tempo. De repente, alguém aproveitou o espaço ao meu lado e se sentou. Era uma senhora que... Ops eu já vi esta pulseira antes... ops... é a mãe do Borat!